Uma campanha lançada hoje pela Plataforma Transgénicos Fora (PTF) defende que as medidas agroambientais, no próximo quadro comunitário de apoio, devem excluir subsídios para o uso de herbicidas na agricultura, sobretudo o glifosato.“Neste momento, as medidas agroambientais ainda preveem apoios em que há aplicação de herbicidas”, disse à agência Lusa Alexandra Azevedo, da PTF, na sessão de lançamento da campanha “Agroambientais sem Glifosato/Herbicidas”, na Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz (Évora).Já que “está em preparação” o próximo período de programação de fundos da União Europeia (UE), “o primeiro grande objetivo” da campanha é que “as medidas agroambientais sejam dignas desse nome e que não haja apoios” para que “se continuem a utilizar pelo menos os herbicidas”, explicou.“É o primeiro patamar para que começar a preservar o solo e a biodiversidade que, depois, vai facilitar todo o modo de produção agrícola”, acrescentou.A campanha, segundo a PTF, visa “excluir o herbicida glifosato dos modos de produção agrícola subsidiados pelas medidas agroambientais para o próximo Quadro Comunitário de apoio (QCA) da Política Agrícola Comum (PAC), devido aos riscos ambientais e de saúde pública” que aquele envolve.Em Portugal, o setor da agricultura “é o que mais pesticidas consome” e “cerca de 70%” dos herbicidas vendidos no país “são à base de glifosato”, substância potencialmente cancerígena, desatacou à Lusa Alexandra Azevedo. “Mas não nos interessa substituir o glifosato por um outro herbicida qualquer. Interessa-nos, realmente, preservar o mais possível o solo, não haver mobilização, haver uma cobertura total e os herbicidas serem abandonados”, defendeu.Por isso, além da aplicação de herbicidas ser excluída dos subsídios pelas medidas agroambientais e de outros objetivos, a campanha pretende “alargar o leque destas medidas para a redução de outros pesticidas e promover a biodiversidade, envolvendo toda a sociedade portuguesa, uma vez que a agricultura é uma atividade basilar que toca a todos”, indicou a PTF, que junta diversas entidades não-governamentais da área do ambiente e agricultura.E, embora no que respeita às medidas agroambientais seja preciso esperar pelo próximo QCA, o “caminho” para a erradicação de herbicidas como o glifosato na agricultura pode começar desde já, sustentou.“Em termos de alertar para o que está aqui em causa e para o próprio interesse dos agricultores, a mudança pode acontecer a qualquer momento”, defendeu, alertando os agricultores que, ao aplicarem herbicidas, estão dar “um tiro no pé”.“A vegetação faz um serviço ecológico e há outros processos para controlar essa vegetação espontânea de forma a não causar dano na cultura. Essa vegetação e o próprio solo só têm a perder se utilizarmos os herbicidas. O agricultor gasta dinheiro a mobilizar o solo, a aplicar herbicida e a comprar fertilizantes químicos que vão ser lixiviados com mais facilidade”, referiu.E “melhorar o solo é essencial” até no que respeita às alterações climáticas, vincou: A agricultura ocupa 40% do nosso território e é a nossa fábrica de sequestro de carbono e de toda a biodiversidade” e é com “práticas agrícolas mais amigas da natureza que podemos dar um forte contributo à redução deste dióxido de carbono que está a ser lançado de forma descontrolada para a atmosfera”. O Esporão, cuja herdade em Reguengos de Monsaraz, onde possui 615 hectares de vinha e cerca de 100 de olival, está totalmente certificada como agricultura biológica desde agosto do ano passado, é um dos parceiros da campanha.O diretor agrícola do Esporão, Amândio Rodrigues, revelou que a empresa “não usa herbicidas desde 2011” e controla as ervas infestantes através de um conjunto de outras práticas agrícolas: “Temos sebes para atrair insetos que comem as pragas ou fazemos largadas de ácaros predadores que também vão comer as pragas”, exemplificou.“Deixámos de usar herbicidas por uma questão de saúde, porque acreditamos e temos a certeza de que os produtos são mais saudáveis assim e até acho que são mais saboroso e associámo-nos a esta campanha porque vai ao encontro da nossa visão e do que já fazemos na agricultura”, afirmou, depois de mostrar também como a plantação de leguminosas, como favas, entre as linhas de vinha, ajuda a fixar azoto e a melhorar o solo.
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