No ano de 1962 é editado livro da ecologista Rachel Carson que alertava para, entre outras coisas, os perigos de alguns químicos para os ecossistemas e para a saúde humana. A partir dessa altura o activismo ambiental tem crescido a olhos vistos. Desde os direitos dos animais até às chamadas energias limpas, passando pela alimentação humana e pelas restantes áreas da sociedade, tudo tem sido alvo de uma refleção (mais ou menos profunda) com vista a diminuir a nossa pegada ecológica.Nos dias de hoje, os debates em torno destas questões há muito que deixaram os congressos científicos e as universidades e passaram para a praça pública, fazendo emergir uma série de profetas ambientais que pregam pela salvação do ambiente e de todos os seus habitantes. Em sua oposição, apareceram também os cépticos que ajudaram à polarização e ao extremar do debate, em conjunto estas duas forças da Natureza ajudaram à criação de movimentos de massas e de algumas fake-news.Tenho a visão de que o aparecimento das redes sociais e das tecnologias de comunicação contribuíram não só para criar estes profetas e cépticos, mas também para espalhar a sua mensagem divina a todos os cantos do planeta. A capacidade de seguirmos ao minuto o que Greta Thunberg ou o presidente dos EUA, Donald Trump têm para dizer é deveras tentador, especialmente se levarmos a sério tudo o que eles disserem.Mas estas preocupações ambientais serão justificadas? Não estarão estes protestos a ser uma tempestade num copo de água? Infelizmente não! A verdade é que as alterações climáticas são um facto. As nossas actividades causam um impacto nos ecossistemas e no clima, alguns deles graves. Contudo, isto não significa que todos os activistas estejam certos em tudo o que professam.Em primeiro lugar, é importante lembrarmo-nos que anjinhos, só no céu. Estes profetas podem perfeitamente ter outros interesses para além da salvação do planeta e estarem a usar este movimento de massas para proveito próprio, por exemplo para obter likes, que lhes dão a almejada visibilidade, ou votos. Em segundo, muitos activistas retratam uma imagem muito simplificada destes problemas. Vejamos o caso do uso de combustíveis fósseis. Os activistas pedem uma descarbonização imediata, ou quase, da economia mundial. Ora, toda a nossa economia está baseada na utilização de combustíveis fósseis, como o carvão, o petróleo e seus refinados. Mudar a economia mundial é um processo lento que, se não for feito com controlo e precaução, poderá mergulhar o mundo num caos absoluto. Além disso, não acredito que essa descarbonização ocorra até ser economicamente rentável fabricar os mesmos produtos de uma forma mais ecológica. O mundo em que vivemos é regido pelas leis económicas, esta é a realidade.Os cépticos, por outro lado, podem também ter os seus interesses e também eles simplificam os problemas. Estou convicto de que o presidente Donald Trump se afirma como descrente das alterações climáticas, porque é isso que os seus eleitores querem ouvir e não porque efectivamente acha que é uma conspiração democrata. A tentativa de compra da Gronelândia pelo governo Norte-americano poderá fazer mais sentido se pensarmos que esta região é rica em valiosos minérios e petróleo e que o degelo facilitará a sua exploração. A contribuição humana para o acelerar das alterações climáticas é óbvia e existem dados sobre isto, e sim, existem animais que sentem dor, de uma forma comparável à dos seres humanos, e por isso é aceitável existirem debates sobre o que podemos ou não fazer com estes animais.Os debates que se têm multiplicado sobre estes temas, as greves climáticas, os protestos, as Gretas e os Trumps desta vida vieram despertar o interesse social para assuntos que fazem sentido serem debatidos e abordados numa sociedade evoluída como a nossa. Aquilo com que os cidadãos devem ter cuidado é em não se deixarem levar por uma ideia simplista e redutora dos problemas e das soluções que cada facção afirma ter. As questões abordadas por estes profetas e cépticos são, repito, pertinentes e devem urgentemente ser debatidas, sem nunca perdermos a noção de que quando falamos em alimentação e saúde humana, energia, matérias-primas alterações climáticas e somarmos a isso 7 mil milhões de pessoas, estamos a falar de alguns dos problemas mais complexos que a Humanidade já enfrentou.
Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

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