Felizmente só saí de Elvas já tarde, quando fui para a universidade estudar Direito. Mas não gostava nada de viver em Lisboa, sentia-me um emigrante forçado em terras inóspitas, voltava a casa todos os fins-de-semana e a minha morada continuava teimosamente a ser no sítio das Fontaínhas, 7350-227 Elvas. Acabado o curso, e com o começo de trabalho e namoro, as idas a casa passaram a ser cada vez menores, mas ainda assim nunca me deixei de considerar residente em Elvas. Mesmo depois de casado, e já vivendo em permanência em Lisboa, por nada deste mundo deixaria que me tratassem por lisboeta. Por isso só senti que traía verdadeiramente a minha cidade no dia em que aí deixei de votar.
Deixei de votar na velha escola primária da Boa-Fé, junto às portas de São Vicente, naquelas inesquecíveis idas às urnas que só eram possíveis ocorrer na província, com o Presidente da Junta a cumprimentar-nos de mão estendida à porta da escola, com ares de fidalgo recebendo-nos no seu palácio no dia em que este por generosidade sua está aberto à populaça. Agora, passei a votar num deprimente stand automóvel na Rua da Escola Politécnica, onde ninguém nos conhece, não conhecemos ninguém e nenhum autarca nos cumprimenta à chegada.
Mas que ainda esteja eleitoralmente registado na freguesia de Santo António, em Lisboa, finjo continuar recenseado na de Caia, São Pedro e Alcáçovas, em Elvas, já que olhar para os votos que os elvenses deram nas legislativas é muito mais interessante do que os votos lisboetas que essa massa urbano-depressiva sem terra deu nos seus candidatos urbano-depressivos igualmente sem terra. Não só é mais interessante, mas também mais revelador da identidade verdadeiramente portuguesa o voto do homem rural, que estando alheio às grandes urbes pensa primeiro na sua terra como pátria e só depois no seu país como tal.
Tanto assim é, que basta olhar para a taxa de abstenção destas legislativas em Elvas, de 55,80% (vencedora por larga maioria no distrito), e compará-la com a das eleições autárquicas de 2017, fixada aproximadamente em 43%. Se o político local, tão mais próximo dos eleitores e com tão mais facilidade em cumprir com promessas concretas como o arranjo de um candeeiro ou a pavimentação de uma estrada, pode ainda assim não ser levado a sério e não ter a confiança da população, quanto mais um sujeito que tantas vezes nada diz à região que representa e apenas aí foi colocado por conveniência de distribuição geográfica das listas partidárias, fazendo-a sentir-se como a Sibéria, que esteve séculos governada sem receber a visita dos czares e sem estes saberem o que era aquela região inóspita (Nicolau II foi o primeiro e último Romanov a visitá-la desde a sua conquista). Felizmente, tal não era o cenário dos cabeça de lista dos principais partidos concorrentes, todos filhos legítimos ou legitimados da terra.
Não pretendo fazer uma análise completa dos sufrágios locais – tarefa a que meritoriamente este jornal já deu despacho por si e por outros analistas políticos – mas gostava de aflorar alguns pontos concretos. O primeiro é a grande e já esperada vitória do PS, com 45,68% (3.853 votos). Ainda que se conceda não ser exclusivamente por este factor, depreende-se em larga medida que o funcionalismo público da autarquia, dominante da vida laboral elvense e do poder local, influencie com relevância e determine os resultados eleitorais, porque o poder instalado, qual pescadinha de rabo na boca, é sempre preferível ao poder desconhecido (por isso mesmo não se prevê que antes do Armagedão os socialistas deixem a Câmara de Elvas).
Depois, é de assinalar a descida acentuada do PSD e CDS-PP, com menos 617 votos do que nas legislativas de 2015, quando os dois partidos foram coligados. O BE e o PCP-PEV também saíram prejudicados este ano, com menos 311 e 217 votos, respectivamente. Estes decréscimos em partidos tradicionais não são só devidos ao aumento da taxa de abstenção, mas também, à semelhança do que ocorre a nível nacional, graças à consolidação ou aparecimento de novas forças políticas que baralham o partidarismo clássico e oferecem alternativas mais musculadas que confortam o eleitorado de causas específicas. Poder-se-á dizer que enquanto a direita diluiu os votos nos três novos partidos concorrentes (CHEGA, Iniciativa Liberal e Aliança), a esquerda fez o mesmo com o PAN e o Livre? Penso que não, porque todos eles tiverem resultados pouco expressivos – com excepção do PAN, que duplicou resultados, e o CHEGA, que teve uns impressionantes 4,52% (381 votos), a menos de 100 votos de distância do PCP-PEV (e segundo partido mais votado na freguesia de S. Vicente e Ventosa) – e porque não creio que tenha sido só a esquerda a dar votos ao PAN e a direita a dar votos ao CHEGA (suspeito de uma fuga de votos comunistas).
E ainda que as distinções sectoriais dos partidos não sejam acentuadas a nível local, já no âmbito nacional são impossíveis de aturar, como a campanha de “direitofobia” promovida pela comunicação social ao partido de André Ventura (que chamam de extrema direita) quando comparada com a maneira como apelidam partidos extremistas como o BE, o PAN ou o Livre de mera esquerda (sem extremo), o que levaria a pensar um eleitor incauto que entre estes e o PS não existiriam grandes diferenças ideológicas. No entanto, basta sairmos do sistema analítico português para se entender que a nível europeu e mundial tais rótulos não são atribuídos ao bel-prazer de alguns iluminados, mas sim olhando a frio para os programas e as ideologias dos partidos (por isso mesmo o CHEGA é justamente apelidado de “far-right” e o BE, PCP-PEV e Livre de “far-left”).
Outro facto curioso é o PCTP/MRPP, ainda que diminuindo em metade os votos das últimas legislativas, ter ficado à frente da Aliança, Iniciativa Liberal, Livre e PURP (cujo cabeça de lista era elvense), o que mostra que partidos tipicamente urbanos não vingam (por enquanto) na raia alentejana.
Num distrito com o menor número de deputados elegíveis (2), muita gente pensa que os seus votos em partidos que não sejam o PS ou o PSD irão para o lixo, por não serem tidos em conta. Mas esse sentimento de inutilidade do sufrágio é um risco enorme porque não só desmoraliza cada vez mais o eleitorado a manifestar-se civicamente, adultera a realidade política do concelho (porque o voto útil em partidos de maior dimensão pode não ser verdadeiramente representativo dos sentimentos ideológicos da população), como também fomenta a continuidade do bipartidarismo clássico e inalterado desde há 40 anos e, por conseguinte, a continuidade das mesmas políticas locais que são a constante crítica dos ex-eleitores.
Como já disse, ou se vota em massa ou só com a vinda do Anticristo e o advento do fim dos tempos o sistema político se alterará – para a sua natural extinção.

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