Tinha eu 17 ou 18 anos quando, de um assumido absoluto desinteresse pelo fado, me apaixonei por essegénero musical a tal ponto de se tornar a quase única ocupação que tinha nas férias escolares. Tudocomeçou quando um amigo comprou uma guitarra portuguesa, desafiou mais dois para acompanharem naviola e ao que sobrava (eu) deram-lhe a tarefa de menor aptidão mecânica: cantar. O nosso grupo,pretensiosamente denominado “Fadistas da Raia”, teve a escassa duração formal de um semestre e o pontoalto da carreira culminou com a primeira e última actuação em palco, num concerto solidário de variedadesno Cineteatro de Elvas.Volvidos 10 anos dessa maravilhosa e desconcertante experiência, desfeito o grupo e mantidas as amizades,do que mais tenho saudades é dessas noites mágicas de ensaios vividas na Taberna da Adélia, à volta deuma mesa quadrada com uma garrafa de vinho tinto sem rótulo que íamos bebericando nas nossaspequenas tacinhas baças. Foi aí que pela primeira vez experimentei o encanto da noite – mais até que dopróprio fado –, da melancolia e do saudosismo. Essas tertúlias prolongavam-se sempre até altas horas,muitas das vezes com o dono Nicolau já a dormir a um canto, e eram passadas entre guitarradas econversas, entre um gole de vinho e uma passa de cigarro.O nosso método de aprendizagem nada ortodoxo dividia-se entre o autodidactismo e as lições do mestreJuvelino (“Joca”), que com a sua guitarra nos ensinava tão generosamente as passagens do Fado Vitória oudo Zé Negro, consoante o dia e o humor. Depois de horas de insistência, com gritos de impaciência àmistura, lá saíam as tão aguardadas notas limpas e claras, com os bordões bem marcados. Então aí asguitarras gemiam, umas vezes com genuíno sentimentalismo, outras vezes no sentido mais literal do termo,e aquele local, que se tinha vindo a preparar desde o início da noite, acumulando cada vez mais fumo emenos sobriedade, tornava-se por fim num antro de fado, numa gruta de saudade, numa verdadeirataberna.Podia falar desta como de outras tabernas, tascas, cafés ou bares que não assim há tanto tempo o centrohistórico tinha cheias de vida, sempre com gente a cantar. Esses sítios eram especiais e mesmo os muitodeprimentes – porque os havia – eram especiais porque essa sua deprimência transmitia toda a beleza cruada noite e do berço do fado. E pode ser só da minha geração ou até apenas do meu grupo de amigos o nãosaber beber uns copos à noite sem uma viola ao lado. Mas de facto estas vivências foram fundamentais nomeu crescimento e eram um elo importantíssimo de ligação à ruralidade e aos costumes locais. Casocontrário, como teria aprendido centenas de versos das saias de Campo Maior ou dos cânticos ao MeninoJesus? Como poderia ter ouvido histórias sobre a família, os avós e os bisavós que nunca conheci por genteque conviveu de perto com eles? Como saberia tantas curiosidades da cidade, de casas, nomes de ruas,tragédias e escândalos passados?Se o problema for geracional, não existe solução (a menos que se promovam cursos intensivos de viola,guitarra portuguesa e canto em contexto boémio – sem lugar por isso a quaisquer contenções alcoólicas outabágicas), mas se for apenas de oferta, muitas coisas se poderão fazer para o contrariar.Sem centrarmos esta questão apenas no aspecto turístico, mas que sendo tão relevante não pode serignorado, podemos perguntar-nos se o que atrairá mais um consumidor forasteiro é uma réplica darestauração que encontra na sua terra ou a oferta de cozinha regional? E mesmo dentro desta, será orestaurante de cozinha regional por si bastante ou vale a pena apostar-se em todo o ambiente (decoração,folclore, gente típica, música) para uma oferta genuína e castiça? Sou por esta última solução, mas éevidente que todo o ambiente não pode ser artificial (o que seria a ideia, que me passou agora pela cabeça,de contratar figurantes alentejanos com boina e mãos nos bolsos, à laia de algumas velhinhas pagas dosprogramas da manhã!).
No caso de Elvas, terra tão típica e rica em tradições, nunca chegaríamos a esse ponto, porque aqui ninguémfinge, a ruralidade é mesmo verdadeira e toda a nossa gente parece exactamente o que é: um encantadorpovo alentejano da raia. Nesta simplicidade temos o nosso trunfo e, à semelhança de tanto patrimóniomaterial que recebemos sem qualquer esforço (pelo menos nosso), também o património imaterial, herançade tantas gerações a viverem no mesmo sítio, nos foi entregue gratuitamente.Resta-nos sabê-lo render, para que tudo isso não se perca com os nossos filhos. Espero que também elesencontrem um mestre “Joca” e uma Adélia, mas para isso é necessário que voltem as tabernas!
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