Cheira a música. Cheira a trabalho, cheira a suor, àquela vontade de testar os nossos limites, àquela sede de sonhar sem ter medo que algo nos prive, àquela fome de partilhar momentos que um dia mais tarde não irão ser mais que memórias que o tempo tingiu de preto e branco, que o tempo se esqueceu de se lembrar que essas memórias sequer existiram, sequer alguma vez coloriram, ganharam vida.
À medida que percorro o corredor, cansado de ver rostos mudarem, de ver rugas crescerem, lágrimas correrem e sorrisos escaparem, vejo a história do tempo, do tempo que passou, vejo rostos felizes, rostos simples, rostos dedicados e trabalhadores que acordaram na esperança de conquistar a nota mais alta da sua partitura da vida. Os tempos testemunharam a evolução de cada rosto, testemunharam cada momento e tingiram as memórias de preto e branco que hoje se encontram presas à parede, mas no entanto, voam. Inspiram. Servem como modelo para os jovens músicos que decidem partir à descoberta da sua nota mais alta, da sua nota mais baixa, da sua pauta.
A nossa cidade sempre foi conhecida pela cidade limítrofe, por vezes não olhamos para ela com o devido ângulo, com o devido respeito. O povo elvense ergueu o que, nos nossos dias é considerado património da Humanidade. Com H grande, maiúsculo, gritante. E o povo elvense é um povo vencedor, um povo conquistador, um povo vitorioso, um povo que adormeceu na esperança de um amanhã melhor mas sempre de espada na mão.
E, deixo aqui um agradecimento pessoal aos fundadores da base da música em Elvas, coloriram a cidade mais um pouquinho, fotografaram os seus rostos na esperança de contagiarem futuros rostos para darem sucessão à sua missão, “Hoje como ontem!”. Foi o lema pelo qual se trabalharam estes anos todos, desde 1952 até 2015. São 63 anos de música, 63 anos de memórias, 63 anos de projetos. É claro que para conhecermos a música, temos de começar por aprender o básico, como a escala natural, eu fui descobrindo a minha, por tentativa e erro, mas sempre de olhos focados na moldura desgastada pelos anos que passaram. Explorámos os bons momentos e os maus momentos, os momentos em Dó e os momentos em Si, foi e continua a ser uma jornada em que pessoas entram, pessoas saem, pessoas que ficam a nosso lado e pessoas que perderam o norte. Não digo que está finalizada, aliás, muito longe disso. Agora é que começo a minha vida como músico, como integrante da História, como personagem deste livro e como rosto influenciado estampado nas molduras.
Não podia deixar de agradecer aos “estarolas” que levam este projeto a peito, que o erguem e que o exibem perante a população. Não consigo descrever como foi exatamente o início desta jornada, recorrendo ao avanço astronómico da tecnologia, penso que digitei uma sms a um desses “estarolas” que “estarolamente” me contagiaram. Me influenciaram e me convidaram a dar asas aos sonhos. Confesso, muito profundamente, que nunca me imaginaria a desfilar de azul escuro com calças bege. Com clarinete na mão e vontade de mudar a cidade. Seria impossível para um adolescente preferir ficar a estudar do que ir a uma festa. Preferir embebedar-me em música que em álcool. Preferir colecionar momentos que não irão mais voltar, aconteceu e acabou.
À medida que ando pelo salão grande, o que está escrito a preto “Salão de Festas” começo a recordar-me destes momentos, destas pessoas, penso que a minha taxa de “sonhodidade” no sangue deve estar elevada. É inevitável. Escapa-me um sorriso por entre os lábios, uma lágrima por entre os olhos, o batimento cardíaco abranda. Sinto que podia ficar aqui, não para sempre, mas por um bom bocado. Aproximo-me do bombo, toco o que deve soar a um Fá, e escuto o som ecoar por entre as paredes e sinto a vibração de novo nos meus ouvidos. A sala está vazia. As cadeiras estão à espera. As estantes estão de braços abertos para acolherem melodias, para acolherem marchas, para acolherem jovens músicos que, assim como eu, decidiram ir um pouco mais além, à descoberta da tal nota, da nota mais alta.
Percebo que a vida não passa de uma pauta, em que cada segundo que vivemos fica registado. Já tive os meus momentos em baixo, já liguei momentos, já coloquei momentos em “suspensão”, já abrandei o ritmo do metrónomo, já o reduzi, já o parei também. Por vezes também faço pausas. E é isso que as jornadas me têm ensinado, a dar uma pausa quando é necessário, a solfejar momentos para os entender melhor e só depois colori-los. Tenho muitas ligaduras para me ajudarem, muitas claves de sol para me ditarem aquando devo começar a tocar, muitos compassos a ditarem-me o número de pessoas que devem ficar e o número de pessoas que devem ir. Eles apenas… assumiram a forma humana.
É inevitável que me caia outra lágrima pela face seguida por um sorriso…aberto. Profundo. Sinto que os tais rostos que tenho dito me olham de outra maneira, os instrumentos sorriem de forma diferente, as portas acolhem-me com fervor. Com vontade de não me deixarem sair outra vez, com receio de partir.
Coloco-me agora no local do maestro. Com a batuta na mão, faço um leve sinal para darem início à marcha. Não se ouve nada. Por vezes, o silêncio é a melhor resposta, mas não me importo. Ando aqui, pelo salão, que nem um louco, agitando o objeto pontiagudo para a esquerda, para a direita, para a frente, para trás e… não deixo de sentir que as molduras ganharam vida. Os rostos sorriem mais um pouco. O uniforme brilha mais um pouco. O céu brilha mais um pouco. Mas não quero sair, não quero que a música acabe, afinal, estou em casa.
Se pudesse voltar atrás? Não mudaria nada, não mudaria o facto daquelas palavras me terem contagiado, me terem colocado o vírus no organismo, me terem feito respirar mais forte à noite e me terem colocado neste preciso local, nesta precisa hora, neste preciso segundo.
Escuto o silêncio. Apenas a minha respiração. Os instrumentos aguardam a minha ordem, o meu comando, o meu consentimento. Coloco os olhos nos rostos que sorriram outrora, que enrugaram, que tocaram vezes sem conta as mesmas notas, que foram também contagiados. Coloco-me, novamente após andar pelo salão, no local do maestro. Levanto a simples batuta e observo os meus momentos a ganharem cor, os meus “estarolas” a entrarem pela porta grande verde, os instrumentos a gritarem e eu no meio. Estou em casa, sempre tive. Pelo menos, desde o momento em que me digitaram a primeira palavra, em que toquei a minha primeira nota no clarinete, e estarei assim que me fotografarem pela primeira vez. Estarei naquelas molduras. Estarei na história da casa, da minha casa, da banda, da Banda 14 Janeiro.

Mr. Bombo

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